terça-feira, 25 de junho de 2013

Querida Vida

Fevereiro,2013.

Olá refúgio.

  Segunda passada eu fui à casa da minha avó. Fazia tempo que eu não a via, e quando a encontrei, quase não a reconheci pelas inúmeras rugas evidentes em seu rosto. Ela ficou mais velha. Muito mais velha.
  Antigamente ela me enchia de presentes, e a maioria deles era um bichinho de pelúcia. Meu favorito é a  
Muna, uma vaca malhada. A Muna sabe me fazer ficar calma, o que é estranho para uma adolescente de 16 anos. 
  Minha avó estava na sua velha cadeira de balanço, agora desbotada devido aos vários longos anos que passara. Ela balançava e cantarolava uma das músicas que costumava cantar comigo: "Durma, sem se importar / Durma, para acalmar / Sonhe, e verás / Que a vida ainda é bela / Não temas, o amanhã virá / Sinta, o amor aflorar / Escute, o pássaro a cantar / Deite e descanse em paz / Por cada sorriso que a vida lhe traz (...) " .
  Parei em frente àquela velha casa branca e encostei na cerca que a rodeia. Sorri ao observar aquela idosa tão tranquila a cantar sem temer os problemas da vida, apenas vivendo os minutos que ainda lhe restam.           Admiro a forma como ela levava todas as situações pacientemente. Meu pai sempre falou que ela era - e é - sua melhor amiga. Seja a coisa mais difícil de se lidar, ela sabe um modo de encarar aquilo de peito estufado e no fim, sempre ganha. Uma das habilidades que eu mais aprecio nos idosos. Acho que o mundo seria melhor se todas as pessoas nascessem com tamanha experiência. 

- Bom dia vó - cumprimentei ao silenciar da música.
- Olá minha querida neta...há tempos não a vejo - disse animada vindo me envolver naqueles abraços de avó.
- Vim lhe fazer uma visita, fiquei com saudades.
- É sempre bom recebê-la, ninguém mais visitou essa velha aqui. 
- Desculpe, é que eu ando ocupada ultimamente. Pude vir apenas agora. - Senti-me envergonhada.
- Não tem problema, vamos entre.
  Adentramos a casa e reparei que continuava do mesmo jeito desde a última vez que estive ali : porta-retratos enfeitavam as paredes rachadas; lençóis de tricô predominavam nos sofás e camas da sala; portas fechadas cada uma com um ditado popular; e (a parte da qual eu mais gostava) a biblioteca com enormes estantes repletas de livros de inúmeros estilos. Quando pequena, toda semana pegava um e levava para casa.
- Então minha neta, o que a fez tão ocupada? - perguntou vovó enquanto trazia na bandeja duas xícaras e um bule de porcelana. Peguei uma delas e dei um gole antes de falar:
- Ah, você sabe, estou procurando um emprego há meses e não encontro.
- É mesmo? Soube da loja que abriu por aqui? 
- Não, mas...o que é que tem?
- Devem estar procurando por alguém, não faz muito tempo que estão aqui. - Uma pontada de esperança acendeu em mim.
- A senhora sabe que tipo de loja é?
- Oh minha filha, não sei explicar, mas são daquelas que vendem histórias de super-herois...
- Loja de gibis - completei.
- Isso! Além da audição estou perdendo a sabedoria...
- Você sempre será a mulher mais inteligente que eu já conheci vovó - declarei pegando em sua mão. Embora minha vó tenha estudado um pouco, sua sabedoria provém dos milhares de livros que já leu.
- Fico lisonjeada com suas palavras minha neta.
  Após algumas horas de conversas e mais café, resolvo ir para casa dormir cedo, para no dia seguinte procurar pela tal loja e talvez conseguir o meu tanto esperado emprego. Sei que não é nada definitivo, mas pelo menos ganharei dinheiro para me sustentar.

  Na terça depois do colégio, procuro pela loja de gibis citada por minha avó. A loja é típica de subúrbios: com tijolos à mostra e imagens dos vários herois idolatrados por seus fãs. Como disse, eu gosto de ler, e embora os gibis não sejam meus preferidos, eu compro vários dos que me interessam.
  Bato na porta de vidro e verifico por este se alguém poderia me atender. Então vejo a seguinte placa: "Procura-se uma atendente". Não tenho experiência em lidar com público, mas eu tentaria.
-  Olá, posso ajudar? - perguntou um homem alto e magro com blusa xadrez.
- Sim, é...meu nome é Samanta Thompson e eu gostaria de conversar a respeito da vaga de sua loja.
- Ah, pode entrar.
  Entrei e reparei nas várias prateleiras com gibis coloridos e capas desenhadas. Tudo muito peculiar de uma loja de super-herois.
- Então, sobre o quê exatamente você deseja saber?
- Bem, eu ando procurando por um emprego, e quando soube dessa vaga, achei que seria uma boa ideia.
- Eu preciso conhecer o seu perfil primeiro. Não queremos alguém profissional ou algo do tipo, apenas uma ajudante no trabalho.
- Claro. Meu nome é Samanta Tompson, tenho 16 anos e sou estudante. Moro sozinha e por enquanto sou desempregada e o dinheiro que tenho não é o suficiente para me sustentar.
- O.k. Já teve algum emprego antes?
- Não. - Ele anotava tudo em uma caderneta.
- Muito bem Samanta...
- Pode me chamar de Sam - interrompi.
- Muito bem Sam, eu preciso conversar com os meus amigos que também são donos da loja e discutiremos se você trabalhará aqui ou não. Provavelmente sim, foi a única que se ofereceu. - Eu ri. - Te ligarei amanhã para dar a resposta. Obrigado por ter nos procurado. A propósito, meu nome é Tyler.
- Até mais Tyler. Eu que agradeço.
  No dia seguinte ele e ligou como prometido. E felizmente, de fato eu havia conseguido o emprego.

  Na manhã de sexta-feira, acordo com batidas na porta para minha surpresa. Com receio de que fosse alguém perigoso, passo na cozinha e pego uma frigideira - melhor do que nada. Vou em direção à porta e, como não tem olho mágico, abro rapidamente para atacar. E assim eu quase acertei uma "frigideirada" na cabeça do Phil.
- Você sabe que horas são? - falei, soltando a frigideira no chão enquanto ele se cobria com seus braços.
- Hora de acordar?
- Péé, errado! - imitei uma campainha de programas de competições da TV. - É hora de dormir, seu chato.
- Além de gorda é preguiçosa - suspirou me olhando de uma forma repreensiva.
  Semicerrei os olhos.
- Entre antes que eu lhe expulse.
  Phil entrou e se sentou na mesa da cozinha enquanto eu pegava uma xícara e fazia meu café. Ele se virou para mim e disse: - Temos uma festa para ir. É de um amigo meu e vai ser à fantasia, e vários casais vão dançar, então eu pensei que você poderia ir comigo. Topa?
Sentei-me à mesa ao seu lado e dei um gole antes de responder:
- Claro...Que dia vai ser?
- Amanhã. - Sem querer cuspi café no chão.
- PHIL EU NÃO TENHO FANTASIA! - gritei.
- Bobona, eu já comprei pra gente - falou apertando as minhas bochechas. Eu adoro quando ele faz isso.
- Depois eu te pago, arrumei um emprego! - Sorri.
- Finalmente...agora você vai parar de me encher o saco reclamando que não consegue arrumar um.
- Irritante, é isso o que você é. - Dei um soco de leve no seu braço e nós dois rimos.
  O sorriso do Phil é o mais bonito que eu já vi.

  Boa noite,
  Samanta.


 

  



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